O ‘não’ à divisão do Pará foi a
opção vitoriosa no plebiscito realizado ontem, no qual os eleitores
foram consultados sobre a formação de dois novos Estados. Com 99,7% das
urnas apuradas, os contrários à criação de Tapajós (região oeste) tinham
66% dos votos. Os que se opuseram a Carajás (sul) chegaram a 67%.
A
vitória por larga margem da frente que defende a manutenção do atual
território esconde diferenças regionais marcantes. A proposta de divisão
foi abraçada com entusiasmo pelos eleitores das áreas que poderiam se
separar. Em Santarém, principal cidade da região oeste do Estado, a
criação de Tapajós teve quase 99% dos votos. Em Marabá, a frente
pró-Carajás conquistou 93% dos eleitores.
Mas essas duas cidades,
juntamente com as demais das regiões separatistas, concentram apenas 35%
do eleitorado paraense – ou seja, na prática, a consulta foi decidida
pelos 65% que estão em Belém ou áreas próximas e que, durante a
campanha, demonstraram contrariedade com a perda de território e
recursos naturais resultante de uma eventual divisão. Na capital, o
‘não’ conquistou 95% do eleitorado.
Após a confirmação do
resultado, o governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), contrário a
criação dos novos Estados, reconheceu a legitimidade das reivindicações
dos separatistas por mais investimentos, principalmente em saúde e
educação (leia texto nesta página).
O deputado federal Zenaldo
Coutinho (PSDB-PA), coordenador da frente pelo ‘não’, disse que os
paraenses ‘agora se veem melhor’. Para ele, o plebiscito chamou a
atenção dos moradores das áreas mais centrais sobre as carências das
regiões mais pobres e com menos infraestrutura.
Recurso à Justiça.
Na tentativa de contornar o problema da escassez de eleitores, os
separatistas recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo que o
plebiscito ocorresse apenas em Tapajós e Carajás. No final de agosto,
porém, o tribunal decidiu que todo o Pará deveria ser consultado.
Para
os defensores do ‘sim’, foi uma derrota judicial e também política.
Segundo o deputado Zenaldo Coutinho, a tentativa de alijar Belém e
cidades próximas praticamente unificou esse eleitorado contra a proposta
separatista.
‘Quiseram fazer tudo na surdina, nós nos sentimos
traídos’, afirmou o deputado, que durante os últimos quatro mandatos na
Câmara promoveu manobras para impedir ou ao menos adiar a realização do
plebiscito.
Com o início do horário de propaganda na televisão, há
um mês, as frentes pró-Tapajós e pró-Carajás fizeram programas voltados
à conquista do eleitorado da capital e arredores, mas a resistência à
proposta de divisão só aumentou, conforme pesquisas feitas desde então. A
campanha dos separatistas na televisão foi coordenada pelo marqueteiro
Duda Mendonça, que tem fazendas na região de Carajás.
Do lado
oposto, não foi difícil para os defensores da manutenção do atual
território difundir as teses de que a divisão deixaria o Pará mais
fraco, pois o Estado perderia o controle dos recursos naturais –
principalmente minério – abundantes no sul.
‘Eles (os
separatistas) queriam ficar com tudo, menos com as dívidas do Pará’,
disse Rosinaldo Gonçalves, motorista de caminhão e morador da capital,
que ontem votou pelo ‘não’.
Tranquilidade. Na capital paraense, os
eleitores encontraram poucas filas e votaram com rapidez, já que só era
necessário digitar dois números – uma resposta sobre a eventual criação
de Tapajós e outra sobre Carajás. Muitos votaram vestindo a camisa
vermelha com o desenho da bandeira do Pará – item cuja venda explodiu em
lojas e bancas de camelôs a partir do início da campanha do plebiscito.
Após a confirmação da vitória, a frente pelo ‘não’ deu início a uma comemoração nas ruas da região central da cidade.
Gastos.
Segundo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro
Ricardo Lewandovski, que viajou para Belém a fim de acompanhar a
apuração, a votação ocorreu sem incidentes em todo o Estado.
O
ministro disse que foi preciso substituir algumas urnas defeituosas, mas
afirmou que em nenhuma seção houve necessidade de colher os votos em
cédula de papel. Segundo ele, o custo do plebiscito para a Justiça
Eleitoral é estimado em R$ 19 milhões.
Ele monitorou a votação do
TRE e se disse satisfeito com a tranquilidade do plebiscito, que definiu
como um ‘momento histórico e de prova de consolidação da democracia no
Brasil’.