De São Paulo a São Paulo

CAPÍTULO I – SÃO PAULO VS SÃO PAULO
Espantado, abismado, abilolado, abestalhado, eu olhava aquela selva de pedras, pela janela do ônibus, que acabara de estacionar na rodoviária Júlio Prestes em São Paulo, depois de sacolejar por 48 horas, ao longo de 3.000 Km., desde Natal. Era 7 da noite do dia 17 de dezembro de 1974.

“São Paulo, aqui estou”. Um lugar que era o sonho de consumo de nove entre dez nordestinos que, desde o início do século XX, acossados pela seca que assolava a caatinga, lançavam-se nesta insana aventura, no afã de melhorar de vida, sendo que os pioneiros, fizeram esta viagem, em cima de caminhões “pau de arara”, numa época em que nem asfalto havia nas estradas e não raro, eram obrigados a descer para empurrar o caminhão nos atoleiros ao longo do trajeto.

Ao fim da jornada, eram vendidos a fazendeiros inescrupulosos que utilizavam essa mão de obra barata e abundante. Contam que era comum, quando o peão pedia para ser dispensado, ansioso para retornar ao seio da família, se por acaso dispusesse de algum saldo, já que além de descontar o valor que lhe era imposto pela viagem, o que não era pouco, o coitado dependia exclusivamente do barracão da fazenda, onde era explorado até não mais poder, os jagunços da fazenda, de emboscada, matavam o pobre coitado, e levavam de volta ao patrão, o mísero dinheirinho conseguido à custa de tanto sacrifício.

Mesmo assim, a grande maioria não mais retornava, por pura falta de condições. Essa parte da história, foi muito bem descrita pelo poeta Patativa do Assaré e tornou-se um clássico na voz do rei do Baião, Luiz Gonzaga, na música “Triste Partida”. Eu ouvia o barulho monocórdio do veículo, e tinha a impressão que queria me dizer: te vira te vira, te vira te vira. Lembrei do meu Rio Grande do Norte onde deixei em minha querida São Paulo do Potengi, meus pais, irmãos, parentes e amigos para me lançar numa aventura onde o desconhecido me aguardava.

Sentia-me uma espécie de trapezista no escuro e sem rede de proteção. Curiosamente descobri alguns paralelos interessantes entre São Paulo do Potengi -RN e São Paulo -SP. Aquela, tranquila. Esta agitadíssima. Aquela 10 mil habitantes (na época), esta 10 milhões. Esta, a São Paulão, detentora das maiores indústrias do País, a exemplo da de automóveis, aviões etc… Aquela, a São Paulinho da feira livre, onde o propagandista se desdobrava na propaganda para vender garrafadas dizendo curar a próstata daquele que urina cinco seis vezes na noite. Certa feita, dizendo ele curar o câncer com tal beberagem, um passante escutando a propaganda, aproximou-se e informou: –  … Continua amanhã.

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