Como a música ‘Jenifer’ nasceu de piada, superou rejeição e virou o sucesso ‘chiclete’ no verão

Gabriel Diniz faz show em em Fernando de Noronha — Foto: Keila Castro/Divulgação

“Jenifer” tem uma trajetória de superação. Primeiro, os pais hesitaram sobre seu nascimento. Depois, um homem assumiu compromisso e a abandonou. Ela ainda enfrentou dúvida de gente experiente até ganhar o Brasil.

Na quarta-feira (9), a música irreverente desbancou o comportado pagonejo “Atrasadinha” no topo do Spotify no Brasil. “Jenifer” também já é líder no YouTube, onde acumula 67 milhões de views. É o primeiro nº 1 nacional de Gabriel Diniz, cantor de forró com um quê de humorista.

“É uma música diferente. É minha cara: alegre, ousada, irreverente. Eu sei que brasileiro gosta da fuleiragem, da cachorrada”, diz o cantor Gabriel Diniz em tom de brincadeira. É a cara do Brasil: a resenha, a brincadeira, o bom humor. Eu sabia que ia ser estouro.”

Mas o caminho para o estouro foi acidentado. A ideia quase não vingou entre seus 8 compositores, que buscavam músicas diferentes. Depois, Gusttavo Lima assinou contrato para gravar e desistiu. Gabriel Diniz assumiu a tarefa mesmo com a desconfiança da própria equipe…

imagem10-01-2019-22-01-40Gabriel Diniz, cantor de ‘Jenifer’, com as atrizes do clipe. À esquerda, Mariana Xavier, encarna a Jenifer. A ex-namorada ciumenta é a ex-BBB Aline Gotschalg — Foto: Divulgação

A casa dos oito pais

Não era nada sério mesmo. O refrão sobre a tal Jenifer do Tinder, difícil de desgrudar da cabeça, veio de uma brincadeira de amigos. A diferença é que era um grupo de compositores de Goiânia, que soube transformar o papo em hit. “Jenifer” foi feita por oito compositores.

Na época, a turma de autores, que se autointitula Big Jhows, dividia uma casa em Goiânia. A união é comum no aquecido mercado musical goiano. Os membros dos “coletivos” de autores passam o dia fazendo músicas juntos e tentando vender para cantores famosos.

“A gente lá era tipo empresa mesmo. Todo dia almoçava junto e às 14h começava a compor. Primeiro sentava todo mundo na varanda. Depois separava em grupos e ia até umas 20h, quando começava a gravar e mandar para os artistas. Até 5 músicas por dia”, explica Léo Souza, 23 anos.

A ideia inicial de “Jenifer” foi de Junior Lobo, de 35 anos. Um dia, ele estava lanchando com amigos e, do nada, apareceu uma mulher e abraçou um deles. “A menina era meio feinha, e depois que ela foi embora, fui zoar ele: ‘E aí, é sua namoradinha?’. Ele respondeu: ‘Não, é do Tinder’”, diz.

A menção ao aplicativo de paquera acendeu uma luzinha na cabeça dele. “Veio na hora: isso é tema. A gente tem que botar Tinder numa música. Aí fui para outra dimensão. A gente lanchando lá e eu ‘matutando’ como ia ser a música”.

imagem10-01-2019-22-01-42A casa em Goiânia onde nasceu ‘Jenifer’: Na imagem, estão 6 dos 8 autores entre amigos. Da esquerda, Junior Lobo (de boné preto) e sua esposa, Bárbara. Junior Avelar (boné azul), Thales Gui (boné para trás) e Allef Rodrigues (camisa preta, último à direita). Abaixados, Léo Souza e Thawan Alves — Foto: Arquivo Pessoal

‘Cindy’ contra a corrente

Mesmo inspirado, Lobo voltou para a casa e não falou nada com os colegas compositores. “Ele segurou, porque ele sabia que a gente não ia gostar muito. Estávamos numa ‘vibe’ de muita bachata e música romântica na época”, explica Léo.

Não eram só os compositores na casa que estavam nessa “vibe” em 2018. A suave bachata e as juras de amor pós-pegação dominam o sertanejo atual. Cantar sobre paquera no Tinder não cai tão bem entre muitos cantores de hoje.

O autor demorou dois dias para superar a hesitação e jogar a ideia na roda, no dia 4 de junho de 2018. Além de Léo, e Lobo, estavam na casa Thales Gui, Thawan Alves, Allef Rodrigues, João Palá, Fred Wilian e Junior Avelar. “Cada um vai falando uma bobagem e vai saindo a música”, descreve Léo.

De início, Lobo queria rimar Tinder com Cindy, mas a moça virou Jenifer. Encaixou melhor. De resto, os outros sete compositores seguiram a história que ele “matutou” para o personagem: “A mulher mandou ele embora, ele encontrou outra menina no Tinder, tava lá de boa com ela. A ex vê, se arrepende e chega lá xingando o cara. Ele dá a volta por cima”, resume Lobo.

Largada por Gusttavo Lima

Jenifer nasceu e foi apresentada ao mundo. Os compositores gravaram uma versão “demo” e mandaram a empresários e artistas. Lobo recebeu uma mensagem rápida no Instagram. Era Gusttavo Lima, que fechou com eles e pagou pelo direito exclusivo de gravar a música. Gol dos Big Jows.

Era só esperar o lançamento. Mas não rolou. “Ele fechou com a gente em um dia, e no outro já até gravou. Mas não soltou a música. Ele pagou e desistiu”, lembra Léo.

Gusttavo chegou a cantar “Jenifer” no mega festival São João de Campina Grande, em 1º de julho. “Recebi uma música de um amigo meu há uma semana”, ele disse no palco. “Nunca gravei músicas assim com esse tema. Achei muito engraçada essa letra.” Ele ensinou os fãs a cantar verso por verso e ainda comentou no fim: “Tem cheiro de hit”.

O vídeo se espalhou pelo YouTube já como “a música nova do Gusttavo Lima”. Léo especula sobre a desistência: “Talvez ele não tenha gostado muito do comentário dos fãs nesses vídeos”, ele diz, notando que ela foge da linha super romântica atual do cantor.

GD na ponte ‘forronejo’

“Jenifer” foi salva da gaveta de Gusttavo Lima por um cantor ativo na ponte entre Nordeste e Centro-Oeste. Gabriel Diniz. 28 anos, nasceu em Campo Grande (MS), mas foi criado em João Pessoa (PB), onde mora.

GD, como é conhecido, é astro do forró, mas transita bem no sertanejo. “Desde 2015 eu vou para Goiânia atrás de compositores. Fui o primeiro cara que saiu do Nordeste nessa busca. Depois foi o pessoal todo pra Goiânia: Wesley, Xand, até Simone e Simaria. Abrimos esse espaço para músicos e compositores”, ele diz.

Os maiores sucessos anteriores dele eram “Acabou, acabou”, com o parceiro de escritório Wesley Safadão (62 milhões de views no YouTube desde novembro de 2017) e “Paraquedas”, com Jorge e Mateus (18 milhões desde março de 2017).

Assim como Gusttavo Lima, Gabriel já era amigo dos Big Jhows. “Eles estavam me mostrando músicas, mas aí quando chegou em ‘Jenifer’, eles falaram ‘essa não, já está com o Gusttavo’. Eu quis ouvir mesmo assim. ”

Trocada por ‘Homem de família’

“Na mesma viagem, eu ia encontrar o Gusttavo”, diz o bem-relacionado GD. “Ele queria minha opinião sobre algumas músicas.”

Eu disse: “Você está com um estouro mundial, que é ‘Jenifer’. Mas ele respondeu; “Eu tenho a música ‘Homem de família’ [lançada por Gusttavo em 2016] . Acho que essa não cabe gravar nesse momento. Eu falei: ‘Se for desistir, me diga’”

Gusttavo estourou em 2011, com o “hoje vai rolar o tche tchererê tche tchê”, de “Balada”. Após fazer um dos maiores hits do “sertanejo pegação”, hoje é rei das rádios com o tal romantismo “de família”. O G1 procurou o cantor para comentar, mas não teve resposta.

No fim, Gabriel conseguiu comprar de Gusttavo a exclusividade de “Jenifer”, pelo mesmo valor que ele tinha pago aos compositores (eles não revelam a quantia). Tudo de forma amigável.

Lançado em setembro, o clipe tem a atriz Mariana Xavier, a Marcelina de “Minha mãe é uma peça”, encarnando a Jenifer. A ex ciumenta é a ex-BBB Aline Gotschalg. A música “foi crescendo devagarinho” pelo país, conta Gabriel. Ele diz que a equipe não esperava o resultado.

“Ninguém achou que ia ser esse sucesso. Nem o pessoal do meu escritório, nem meu empresário. O Wesley [Safadão, um dos sócios do escritório] não acreditou, ninguém acreditou. Foi uma aposta minha, sozinho mesmo”, diz Gabriel Diniz.

Hit do carnaval?

A um mês do carnaval, a chegada de “Jenifer” ao 1º lugar a coloca na pole position da corrida para ser o grande hit da festa. Gabriel tem 12 shows marcados para os 4 dias de folia: Salvador, Recife, Olinda e Brasília são as principais cidades no circuito.

Ao contrário do personagem de “Jenifer”, Gabriel namora há dois anos e meio. Seu pai, que era bancário, hoje trabalha na administração de seu escritório. A mãe também cuida da sua carreira.

Ele é brincalhão ao comentar a música, mas sério ao falar de negócios. Diz que ainda vai avaliar os convites para shows e trabalhos no Rio e São Paulo. “O pessoal está pedindo, mas vamos estudar ainda como entrar. Não dá pra ir aleatoriamente”.

Léo, que no fim do ano saiu da casa dos Big Jhows para focar na sua própria dupla, Thales & Léo, reflete sobre o sucesso da composição, de longe o maior hit a sair da casa: “Tanta música sofrida, e fomos emplacar logo a ‘Jenifer’…”

G1

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